Traída

A vida estava no auge do desabrochar. Era primavera! As flores estavam todas se abrindo e meu bebê chegaria dentro de quatro semanas.

Mas, de repente, foi como se a primavera deixasse de existir e da mesma forma, o futuro. Eu estava parada ao lado da gaveta da escrivaninha que se encontrava escancarada, e segurava algumas passagens de avião em minhas mãos. Havia um total de seis bilhetes, três viagens de ida e volta para duas pessoas, em nome de Carlos. Já fazia mais de um ano que eu não viajava com meu marido. Meu coração começou a bater forte, parecia que ia saltar pela boca.

Eu não queria acreditar nas evidências, mas ao mesmo tempo, sentia-me compelida a buscar algo mais concreto. Nessa busca, encontrei o que não poderia deixar dúvidas. Bilhetes de teatro para dois. Notas de restaurante provenientes de noites em que ficara “trabalhando” até mais tarde. Mais passagens de avião indicando que ele chegara à cidade, dois dias antes de vir para casa. Eu procurei algo em que me apoiar – a própria escrivaninha, uma cadeira, qualquer coisa. Meu marido estava tendo um caso com alguém. Meu corpo começou a tremer e minha cabeça a girar. De alguma forma, percebi que minha vida nunca mais seria a mesma.

Carlos e eu havíamos sido criados em famílias cristãs estáveis, conhecido um ao outro numa Escola Cristã, dedicado nosso casamento e nosso filho ainda por nascer, ao Senhor. Ele fazia parte de uma organização cristã. Juntos, nós orientávamos o grupo de adolescentes da igreja, éramos professores da Escola Dominical e, fielmente, freqüentávamos um grupo de estudo bíblico.

A vida estava sendo boa para nós! Carlos tinha um bom emprego, uma casa nova e um bebê a caminho em quatro semanas. O quarto do herdeiro estava prontinho; a decoração tendia para o amarelo. Não faltava nada das  fraldas ao famoso “ursinho” de dormir. Não havia motivo para reclamar da vida.

Mas, ali estava eu com as passagens de avião em minhas mãos. Eu simplesmente não podia recolocá-las no fundo da gaveta e fingir que não existiam. Sentei-me e procurei ordenar meus pensamentos.

As coisas começaram a fazer sentido. A frieza com que Carlos vinha me tratando nos últimos tempos, o fato de estar sempre ocupado com os negócios, as noites que chegava tarde do trabalho, as partidas de tênis com o chefe, nos fins de semana e as freqüentes viagens da firma, a serviço. Veio até em minha mente, a imagem do Dia das Mães, apenas algumas semanas atrás. Foi a minha primeira e tão esperada comemoração do Dia das Mães pela qual eu vinha orando há seis anos. Os familiares de Carlos vieram para casa e trouxeram presentes para o bebê que estava a caminho – um macacãozinho azul, caso fosse menino e um vestidinho cor-de-rosa para menina. De repente, após o jantar, Carlos levantou-se abruptamente e comunicou que precisava ir correndo ao escritório para terminar um serviço para a manhã seguinte.

– Mas Carlos, é Dias das Mães. Será que você não pode esquecer os negócios pelo menos hoje? – sua mãe aventurou-se, em oposição àquela atitude.

Mas Carlos levantou-se e saiu. Era uma época de muito serviço para ele. Eu compreendia. Cem por cento dedicado ao trabalho, dava duro para que o bebê e eu pudéssemos ter uma vida confortável.

Mas, naquele momento, tudo se tornava mais claro! Ele não saiu a serviço no Dia das Mães. Tudo fazia parte de sua camuflagem, mentiras, infidelidade. Gotas de suor brotaram em minha testa e comecei a tremer. Minha primeira reação foi sair correndo e trocar todas as fechaduras para que ele não pudesse entrar. Eu não queria mais vê-lo na minha frente.

Fiquei parada no meio da sala enquanto uma dor imensa tomava conta de mim. A sala onde havíamos recebido tantos amigos! O sofá em que Carlos e eu, tantas vezes, havíamos sentado, sonhado e planejado juntos. Meus olhos foram até a poltrona azul de encosto alto onde apenas um mês atrás eu havia “construído” uma altar para o Senhor.

– Pai, conheço muitas coisas a seu respeito. Agora, quero conhecê-Lo de verdade… Venha o que vier.

Aquela reentrega estava tão viva em minha mente, como se tivesse acabado de ser feita. Eu também havia chorado naquele dia – lágrimas que encerravam o desejo de conhecer mais a Deus. À medida que Deus me levava para mais perto dEle, iniciava-se também, em minha vida, o processo de perdão, antes mesmo que eu precisasse colocá-lo em prática!

 

CONFRONTAÇÃO

-Bem, agora que você já sabe, existe realmente outra pessoa, e eu estou apaixonado por ela.

Foram estas as palavras de Carlos. Ditas da mesma forma e com a mesma entonação como se dissesse que estava indo à padaria comprar leite – sem o menor traço de culpa ou remorso.

-Já faz tempo que não sou feliz em nosso casamento. Uma vez que eu vou mesmo embora, é melhor ir agora.

Ele nem se deu ao trabalho de vestir o paletó! Em seu rosto, uma dureza tão grande, que eu nunca havia visto. De repente, eu o amei e odiei ao mesmo tempo. Queria que fosse embora, mas também queria segurá-lo e retê-lo para sempre. Ele se virou e caminhou em direção à porta. O paletó escorregava de seus ombros.

– Não precisa mais me esperar!

Eu não tive forças para responder!

Fiquei parada na porta olhando o carro se afastar até perder de vista. A sensação que eu tinha era de estar assistindo a um filme de pesadelo, ou de estar ouvindo a história de outra pessoa. Durante toda a noite a casa ficou vazia e silenciosa. Somente meu choro ecoava! Eu vagava pela casa chorando, entrava e saía do quarto do bebê, sempre chorando. Cerrei meus punhos e os levantei para Deus dizendo:

– Deus, quero que o Senhor saiba que, se este é o Seu plano para minha vida, ele é uma droga! Eu odeio o meu marido e odeio o que o Senhor está fazendo comigo e com o meu bebê.

 

O MOTIVO

– Mas, diga-me Suzanne, por que você acha que ele foi embora?

Era minha vizinha perguntando, enquanto tragava um cigarro e fazia rodinhas de fumaça para cima. Fazia uma semana que tudo havia acontecido. Eu estava sentada à mesa de sua cozinha enquanto conversávamos.

– Você acha que existe outra pessoa?

Ela aguardava minha resposta.

– Sim Rose, existe outra mulher.

– Bem, Suzanne, é meio difícil dizer isto para você, mas eu já sabia.

Ela apagou o cigarro, sentou-se na minha frente e olhando-me bem nos olhos disse:

– Cíntia e o marido são seus melhores amigos, não é verdade? E vocês quatro estão sempre juntos, certo? Não me importa se ela se diz crente como vocês. Cíntia roubou seu marido e eu vi com meus próprios olhos.

A xícara de café quase caiu de minhas mãos. Era como se toda minha força esvaísse.

“Deus! Faça com que ela esteja errada. Pelo nosso testemunho para com a Rose e seu marido, permita que ela esteja errada!”.

Mas Rose continuou a falar:

– Quando você foi visitar sua mãe em Nova York, Cíntia esteve em sua casa com Carlos. Eu estava com uma gripe danada e não fui trabalhar. Naquele dia, vi Carlos e Cíntia entrarem em sua casa. Jorge e eu estávamos pensando em como lhe contar, mas percebemos que logo você iria descobrir.

Aí estava o motivo. Como se não bastasse o fato de Carlos haver me traído, tinha que ser logo com uma de minhas melhores amigas! Senti a raiva subindo. Meu coração estava disparado. Eles tiveram a audácia de manter o caso em minha própria casa! Irada e humilhada, foi difícil até me despedir de Rose. Era como se minha vida houvesse se transformado numa novela piegas. E nesse tipo de novela, não existe final feliz!

 

CINCO MINUTOS

De alguma forma, achei forças para sobreviver nas próximas semanas. Meu filho nasceu. Um saudável e lindo bebê, com cabelos escuros como os do pai.

– Senhor, o que farei com um filho sem pai? E quando ele chegar à adolescência?

Naquele momento, vieram em minha mente certas palavras que se transformaram em âncora de que eu tanto precisava.

– Suzanne, não se preocupe com o amanhã. Confie agora em Mim!

– Mas, Senhor, eu estou supercarente! Carlos foi infiel. Minha amiga roubou meu marido. Meu bebê não tem pai.

– Suzanne, você não precisa pensar em perdoá-los para sempre. Perdoe-os agora, neste minuto.

De repente, percebi que não podia manter aquela atitude durante um dia inteiro, mas seria possível por cinco minutos. Eu poderia não saber o que fazer com um filho adolescente, mas o meu filho era recém-nascido. E eu sabia lidar com recém-nascidos.

 

APOIO

Durante os dias e semanas que se seguiram, enquanto eu me esforçava para evitar uma autodestruição, clamava a Deus e dizia:

– Senhor, eu não estou gostando do que está acontecendo. Eu odeio meu marido. Eu odeio a mulher que o roubou. Será que não há justiça?

Eu me abri, não somente com Deus, mas também com um casal de amigos, Daniel e Priscila.

Muitas vezes se assentaram ao meu lado e me ouviram; momentos em que a dor e a raiva pareciam me asfixiar. De vez em quando, eles gentilmente davam um “toque”, lembrando-me da perspectiva de Deus sobre o assunto; mas na maioria das vezes, apenas me ouviam e me amavam. Ao falar sobre minha raiva com Daniel e Priscila e mais tarde com um conselheiro, comecei a resolvê-la.

Além de ouvir, davam-me amor e perdão incondicionais. Eles não tomaram partido, não julgaram e não condenaram – a mim por meu ódio e a Carlos por sua infidelidade. Fizeram por mim, naquela época, o que eu não conseguia fazer – eles perdoaram meu marido e minha amiga. Rodeei-me de amigos, não para simplesmente despejar minha história sobre eles, mas  porque dessa forma, poderia receber força, sabedoria e dicas que me auxiliariam a viver.

 

CONFIANDO NOS PLANOS DE DEUS

Aos poucos, atingi outro importante passo no processo do perdão. Percebi que deveria assumir a responsabilidade por meu futuro. Tinha uma escolha a fazer: permitir que o divórcio arruinasse minha vida, ou então, determinar perante Deus que aquela traição, não importando o quanto eu a detestasse, não destruiria o plano do Senhor para mim, tampouco para o meu filho. Passei a perceber que Deus não havia arquivado Seus planos em relação a mim. Ele ainda os mantinha firmes em Suas mãos. Ninguém pode sabotar Seus planos – nem mesmo um marido infiel. Aos poucos, a raiva que eu sentia foi diminuindo.

 

RECUSANDO A AMARGURA

Perdoar tornava-se mais difícil quando via Carlos e Cíntia casados. Sentimentos e pensamentos negativos povoavam minha mente. “Ele não dá a mínima para o filho. Ela roubou o meu marido. Por que a vida que ela leva é tão boa?”

Lembro-me do dia em que encontrei Cíntia em frente ao Correio. Era a primeira vez que eu a encontrava, após o casamento deles. Ela estava com um carro novo. Também ouvira dizer que estavam construindo uma casa. Eu tinha um carrinho modelo econômico, havia me mudado para um apartamento de dois dormitórios e saía para trabalhar todas as manhãs, deixando meu filho de três anos com uma babá. Ondas de raiva e de autopiedade invadiram meu ser. Eu não suportava nem olhar para ela.

Mas, era inevitável que nos encontrássemos. Ela estava descendo as escadas e eu subindo. Eu a cumprimentei:

– Oi Cíntia!

Pronunciei aquelas palavras da forma mais genuína e educada que pude. Ela virou o rosto rapidamente para outra direção, mas eu notara algumas linhas duras em seu rosto. Não era a mesma Cíntia com quem eu compartilhara a vida no passado. Ela parecia velha e cansada.

Repentinamente, senti compaixão dela. A culpa estava estampada em seu rosto. Ao passar Davi para a babá e me dirigir para o trabalho, meus sentimentos iam do ressentimento à compaixão. Fiquei penalizada pela culpa que ela carregava. Mas, ela continuava sendo a razão pela qual eu precisava deixar meu filho com a babá e ir trabalhar, quando desejava desesperadamente ficar em casa com ele, contar histórias e fazer bolos. Ela era o motivo pelo qual eu precisava me esforçar para que o orçamento desse no final do mês. Enquanto isso, Cíntia dirigia seu carro novo e construía uma outra casa.

Foi aí que comecei a perceber que, recusando-me a perdoá-la, estava abrigando e permitindo que a amargura criasse raiz em meu coração. Eu não queria ser uma pessoa amarga. Nesse momento, lembrei-me de uma mulher muito amargurada. Não havia beleza em sua face e nem graça em sua vida. Eu não gostaria de me tornar aquele tipo de pessoa. Por outro lado, também vieram à minha mente algumas mulheres que estampavam graça e bondade. Estas sim, eram meus exemplos.

O contraste de ambas as imagens perdurava em minha mente nas horas de maior conflito interior, ou seja, quando levava meu filho para visitar o pai e via a linda casa; o fato de saber que Cíntia podia ficar em casa com os filhos e eu não; as férias nas montanhas com o marido no período de Natal, etc. Procurava, então, visualizar a mulher amargurada com a qual eu não gostaria de me parecer. Recordava, também, meu compromisso com Deus, de não permitir que amargura e a falta de perdão prejudicassem a vida de meu filho.

 

APROXIMANDO-ME DE DEUS

Em meu caso, a graça para perdoar surgiu, não como conseqüência de uma decisão específica para tal, mas como uma escolha lúcida de aproximar-me de Deus. Em minha luta para perdoar e esquecer, ligava o CD do carro e ouvia hinos de louvor. Durante a noite, quando conciliar o sono se tornava impossível, lia salmos em voz alta. Decorava versículos bíblicos e os repetia, seguidamente, até que me acalmasse e diminuíssem tanto os ressentimentos, quanto os temores em relação ao futuro.

O aproximar-me mais de Deus, através dos meses e anos, permitiu que, finalmente, conseguisse recordar-me de coisas boas a respeito de Carlos e Cíntia. Consegui lembrar dos bons períodos que passamos juntos. De fato, deparei-me preferindo lembrar de coisas boas sobre eles.

Com a escolha de aproximar-me de Deus, ao invés de afundar-me nos ressentimentos, encontrei força suficiente para, naquele momento, perdoar. A próxima vez que fui levar Davi para visitar o pai, precisei refrescar minha memória: “Oh! Senhor, ajuda-me a pensar em coisas positivas sobre eles”. Deus me concedeu, em doses graduais, a graça para pensar positivamente e também para perdoá-los.

 

CURA POR MEIO DA DOAÇÃO

O perdão foi chegando, na medida em que tirava os olhos de minhas mazelas e colocava-os em outras pessoas que, por algum motivo, estavam sofrendo. Certa noite, vários anos após Carlos ter saído de casa, meu telefone tocou. Era outra mulher que, naquele momento, atravessava uma situação semelhante à minha. Ao conversarmos, notei que poderia ajudar, não somente a ela, mas também a outras. Deus não havia me abandonado. Pela graça, eu conseguira atravessar aquele terrível pesadelo.

Aquele telefonema resultou num almoço semanal e dali um estudo bíblico com três mulheres em situações semelhantes. Mais tarde, já éramos doze. Reuníamo-nos para nos apoiar, mutuamente, e estudar a Bíblia.

Atualmente, anos após o ocorrido, o grupo de apoio para mulheres divorciadas de nossa comunidade ainda existe e está muito ativo. À medida que me dispus a estender minha mão e ajudar a outros em seus sofrimentos, minha própria dor foi curada e esquecida.

 

O FRUTO DO PERDÃO

Certo dia, sete anos depois daquela manhã quando pensei que minha vida fosse terminar, recebi uma notinha escrita à mão. Era Cíntia pedindo perdão. Consegui sentar em minha escrivaninha e escrever as seguintes palavras:

Cíntia,

Eu já a perdoei. Você tem muitas qualidades positivas, utilize-as para encorajar outras pessoas. Desejo o melhor para você, Carlos e as crianças. Não permita que o passado se interponha entre nós. Lembre-se somente dos bons tempos que desfrutamos juntas. Se nossos caminhos se cruzarem ao longo da estrada, não haverá nada pendente. Você está perdoada!

Na semana passada, ao fazer umas compras perto de casa, vi Cíntia n loja no meio das pessoas. Fazia muitos anos que não a encontrava. Ela passou por mim como se não me conhecesse. Mas, mesmo ali, no meio de uma loja abarrotada de pessoas, descobri que perdoar vale a pena. Eu consegui olhar para ela, lembrar-me dos tristes acontecimentos ocorridos entre nós, mas não senti o tão sufocante ressentimento.

Quando Carlos passa em casa para pegar o filho, já consigo olhar para ele com compaixão. Foram-se as pontadas de ódio e mágoa. Aprendi que, se confiarmos em Deus, receberemos Sua graça para perdoar por um minuto, e dali por diante os minutos se multiplicarão. Teremos paz conosco, com Deus e, até, com aqueles que nos magoaram.

Depoimento de Suzanne Miler a Ruth Senter

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