Experiência quase-morte existe mesmo?

Ver a cara da morte já não é mais sinônimo de passar para o lado de lá. Com o avanço da Medicina, muitas pessoas dadas como mortas conseguem voltar à vida nas UTIs. Trazem consigo relatos impressionantes, tais como flash-backs, a sensação de sair do corpo e flutuar sobre ele, a passagem por um túnel iluminado e o encontro com familiares mortos e seres espirituais. A experiência é mais frequente do que parece. Uma pesquisa do periódico britânico The Lancet, realizada na Holanda, revelou que 18% de 344 pacientes entrevistados já haviam passado por eventos semelhantes.

Delírio ou realidade?
As respostas do fenômeno, batizado de experiência quase-morte (EQM) – tradução para near-death experience – se enfileiram em campos opostos. De um lado, a perspectiva espiritualista tende a interpretar os relatos como evidências da vida após a morte. Filmes, romances, novelas e programas de TV também seguem essa tendência. Vide o recente exemplo da novela global Amor, Eterno Amor, em que o personagem Fernando (Carmo Dalla Vecchia) abandona o próprio corpo na mesa de cirurgia.

Em contraste, a comunidade científica nega que essas experiências sejam sobrenaturais. Desde os anos 2000, diversas equipes neurológicas em todo o mundo se debruçaram sobre a questão e já oferecem respostas bastante contundentes. “Até hoje a ciência não foi capaz de reproduzir em sua totalidade as sensações de uma real EQM. No entanto, estudos que estimularam determinadas áreas cerebrais conseguiram mimetizar algumas sensações da experiência, como a luz clara e a sensação de túnel, por exemplo”, afirma o cirurgião cardiovascular Leonardo Miana, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Minas Gerais.

Cinco hospitais da cidade mineira integram a equipe de pesquisas internacional Aware Study, coordenada pelo médico britânico Sam Parnia, da Universidade Cornell, em Nova York, um dos maiores especialistas em EQM no mundo. O estudo ocorre hoje simultaneamente em vários países, com o intuito de descobrir o que acontece com a consciência de 1.500 sobreviventes de parada cardíaca intra-hospitalar – cem deles são brasileiros.

Testando o sobrenatural
“Colocamos prateleiras voltadas para o teto com figuras aleatórias que, supostamente, só podem ser vistas por alguém olhando do teto para o leito, ou seja, alguém que estivesse realmente tendo uma experiência extracorporal”, descreve Miana. Se o paciente recuperado conseguir relatar algumas das figuras, isso significa que o cérebro, embora inativo, conseguiu de alguma forma ter percepções. “Também são avaliados diversos testes psicológicos e neurológicos nas pessoas que referem EQM e nas que não referem”, completa o médico.

Além da veracidade das lembranças, a luz no fim do túnel, relatada pela maioria das pessoas, também já tem uma hipótese bastante convincente: a queda brusca de oxigenação no cérebro, que provocaria a ativação das células da visão e a explosão de impulsos elétricos. A tese foi apontada em 2009 pelo anestesiologista Lakhmir Chawla, da Universidade George Washington (EUA).

Ele e sua equipe estudaram a atividade cerebral de sete pacientes, cerca de trinta segundos a três minutos antes de virem a falecer, e publicaram um artigo no respeitável periódico Journal of Palliative Medicine. “Acreditamos que os pacientes que sofrem paradas cardíacas, mas são reanimados com sucesso, podem se lembrar das imagens e memórias desencadeadas por esta cascata. Oferecemos isso como uma potencial explicação para a clareza na qual muitos pacientes têm ‘experiências fora-do-corpo’ a partir de um evento próximo da morte”, pontua o texto.

Fora de si
Já a sensação de deslocamento do corpo físico, chamada de experiência extracorporal, foi relacionada ao estímulo do giro angular, lobo localizado no setor cerebral responsável pela percepção espacial. Em 2002, ao examinar uma paciente com epilepsia, o neurologista suíço Olaf Blanke descobriu que pequenas descargas elétricas na região afetam a orientação de espaço, podendo quebrar a unidade entre a mente e o corpo e criar a sensação de flutuação. “A estimulação também provocou transformações ilusórias nos braços e nas pernas e deslocamentos em todo o corpo, indicando que as experiências fora do corpo podem refletir uma falha do cérebro”, resume o artigo, publicado na revista científica Nature.

Cérebro condicionado
Há ainda outros indícios. Pesquisadores da Universidade de Kentucky, em Lexington (EUA), observaram que as situações de proximidade com a morte, durante um sono induzido por anestesia, ativam os mesmos mecanismos neurológicos que entram em ação quando uma pessoa tem o conhecido “sonho lúcido” (a sensação de plena consciência do sonho e o “poder” de interferir na história).

A tese vem de um estudo do Centro de Pesquisas de Experiências Fora do Corpo (OOBE Research Center, em inglês), na Califórnia (EUA). Quatro grupos de 10 a 20 pessoas foram observados durante o sono, com a orientação de imaginarem ao máximo a ideia de estarem entrando por um túnel com fim luminoso. Dezoito dos voluntários afirmaram terem sido capazes de sonhar com isso. Conclusão: as EQM podem ser um reflexo condicionado do cérebro, isto é, um sonho realista.

Tendo em vista que esse campo de estudo é recente, ainda há muito para se descobrir. Mas há outro fato intrigante em comum nos depoimentos: ao voltar das EQMs, a maioria dos pacientes tende a se transformar. “Essas pessoas tendem a evoluir posteriormente com uma melhor interação com o meio ambiente, melhor aceitação dos problemas e um menor medo da morte, comparados aos sobreviventes que não apresentaram EQM”, avalia o médico Leonardo Miana. Em outras palavras, é como se a pessoa interpretasse a experiência como uma segunda chance de viver e fazer tudo diferente.

Nova vida
“A experiência quase-morte dividiu a minha existência em duas partes, interrompeu um caminho conturbado de caos e ódio”, conta o advogado Solon Michalski, de Petrópolis, RJ. Ele passou por uma EQM aos 22 anos, quando sofreu um acidente de automóvel, envolvendo um caminhão, em Santa Catarina.

Com fraturas expostas, Solon ficou em coma por dez dias, até que, em estado letárgico, começou a ter a sensação de que estava se deslocando do corpo. “Entrei em um túnel ascendente e, à medida que avançava, senti alívio e bem-estar crescentes. Um ser iluminado surgiu diante de mim, porém, ao mesmo tempo, comecei a relembrar acontecimentos marcantes de minha vida, que me envergonharam”, relata.

Solon também viu um jardim, teve a intenção de entrar nele, mas foi impedido pelo “ser de luz”. Subitamente, a experiência acabou e ele se viu novamente na mesa do hospital, onde os médicos tentavam reanimá-lo. Depois disso, Solon se voltou para uma vida menos apegada ao material e entendeu a experiência como um evento de extremo significado, uma “diplomação para a vida”. Vale lembrar que não é preciso ficar cara a cara com a morte para valorizar o sentido da vida. A oportunidade de viver com propósitos é dada a todos, a cada dia.

Raio X das EQMs
O que são: relatos de lembranças ocorridas durante uma ameaça real à vida, em estado de inconsciência e morte clínica (ausência de batimentos cardíacos, parada respiratória e atividade cerebral nula).
Quem já teve: estima-se que 8 milhões de estadunidenses, segundo o Instituto Gallup, a maior referência mundial no tema.
Quando: já existem relatos da época de Platão, na Grécia, mas a expressão só foi sistematizada em 1975, com o livro Vida Após a Vida, do médico e psicólogo norte-americano Raymond Moody Jr. A obra relata a experiência de 150 pacientes.

O que acontece durante uma EQM
(1) Sensação de desprendimento do corpo (autobilocação) e de flutuar sobre ele.
(2) Passagem por um túnel com luz brilhante.
(3) Encontro com seres iluminados ou entes queridos.
(4) Sentimento de paz e serenidade; a dor desaparece.
(5) Momentos de flashback e balanço da existência.
(6) Fronteira entre a vida e a morte no fim do túnel.
(7) Retorno ao corpo.
Fonte: Vida Após a Vida, de Raymond Moody Jr., e sistematização realizada pela médica Elisabeth Kübler-Ross, que entrevistou cerca de 20 mil pessoas.

Entre o real e o sobrenatural
O que acontece após a morte angustia a humanidade há milênios. Isso explica o interesse pelos relatos das experiências quase-morte (EQM), muitas vezes interpretadas como um pálido reflexo do acontece no “lado de lá”. A Bíblia, porém, tem uma resposta diferente para o tema. Quem explica é o teólogo Adriani Milli Rodrigues, mestre em Ciências da Religião pela Umesp, doutorando em Teologia pela Universidade Andrews (EUA), e professor do Centro Universitário Adventista de São Paulo.

Em linhas gerais, qual é a concepção bíblica sobre as EQMs?
Ela se diferencia dos extremos da perspectiva espiritualista e materialista. Ao contrário do espiritualismo, a descrição bíblica da realidade da natureza humana se aproxima da tese científica/materialista de que não existe vida fora do corpo. Em outras palavras, a morte não representa uma transição para outro estado de existência (Sl 6:5; 146:4; Ec 9:5, 6, 10). Contudo, em contraposição ao materialismo, o pensamento bíblico reconhece a dimensão sobrenatural como importante componente da realidade. Isso significa que as EQMs não são, necessariamente, reduzidas ao fenômeno de alucinação.

Em que sentido as EQMs podem realmente envolver o mundo sobrenatural?
A complexidade e as diferentes situações envolvidas nas EQMs dificultam uma resposta simples. Mas, com base na visão bíblica de realidade, tais experiências podem ser um engano, já que o mundo sobrenatural se caracteriza por um grande conflito entre as forças do bem (Deus e seus anjos) e do mal (Satanás e os demônios). Dessa forma, os pretensos contatos com os mortos são, em realidade, uma comunicação com a personificação e engano dos demônios (2Co 11:14). Por isso, Deus proíbe qualquer pretenso contato com espíritos via necromantes e feiticeiros (Lv 19:31; 20:27; Is 8:19).

 

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