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O filme sobre Noé, ou que se propõe a apresentar aspectos da vida do famoso patriarca, vai continuar repercutindo e polemizando no mundo por pelo menos duas razões.  O primeiro motivo é que quem dirigiu e produziu a película já avisou que sua intenção não foi a de levar avante um relato fiel ao texto bíblico e tampouco ajudar a fortalecer a fé das pessoas a partir de lições aprendidas com a biografia da personagem principal. A outra razão para polêmica é o fato de muitos enxergarem no filme distorções ou pontos de vista radicalmente diferentes dos que foram relatados na fonte primária que trata da vida de Noé, ou seja, a Bíblia. E a tendência é que outros filmes, no estilo de Hollywood, reflitam esse mesmo aspecto, ou seja, não reproduzam o que o livro sagrado do cristianismo ensina.

Já falei em um artigo passado (http://adv.st/QlLYIm) que filme comercial com temática bíblica não é feito para inspirar, mas para vender. Essa é a lógica de um mercado em que a produção cinematográfica é, como o próprio nome diz, um produto. E produto existe para atender ao público-alvo e invariavelmente dar lucro a quem investiu dinheiro nisso. Quem não entende isso acaba se iludindo.

Quanto a distorções ou desvios do conteúdo apresentado no filme em relação ao texto bíblico, nada melhor do que ir às fontes primárias para checar se é assim mesmo. Premissa básica de quem deseja conhecer mais sobre um assunto. É preciso pesquisar e não apenas ficar na superficialidade dos dados.

À despeito do que pode dar a entender o filme, Noé e sua família realmente não se alimentavam de carne porque o regime alimentar até aquele momento era o designado por Deus desde o Éden. A dieta que incluía carne foi adotada depois do dilúvio com a permissão de Deus e posteriormente com a orientação sobre o cuidado na ingestão de carnes consideradas imundas (Gênesis 8 e 9 e Levítico 11).

Não há nada na Bíblia que possa concordar com a ideia de que anjos quiseram proteger Adão e Eva quando esses cometeram pecado no Jardim do Éden. Pelo contrário, anjos que se rebelaram contra a vontade de Deus e questionaram Seu caráter, antes mesmo do casal do Éden, entraram em luta com os anjos bons e com Cristo e acabaram expulsos do Céu. O relato bíblico informa que um terço desses anjos não teve mais acesso ao Céu por conta dessa desobediência consciente e lealdade ao anjo Lúcifer (posteriormente conhecido como Satanás).

 

Anjos guardiães

 

É também pouco lógica a ideia, apresentada no filme, de que Adão e Eva precisassem de uma defesa dos anjos do mau. Isso porque, no próprio relato de Gênesis, é dito que Deus conversou com o casal após sua queda. Embora eles tenham amargado consequências por seu ato deliberado, o Senhor não os abandonou e nem os perseguiu, mas lhes deu roupas para se vestirem e continuou mantendo contato com eles, embora já não pudessem mais desfrutar da vida no paraíso idealizado pelo Criador. Além disso, conforme Romanos 5, o apóstolo Paulo faz uma aplicação comparativa entre Cristo e Adão, mas no sentido de que, por meio de Adão, entrou o pecado e, por meio de Cristo, veio a salvação ou remissão dos pecados. Mas nada que pudesse justificar uma atribuição especial de culpa a Adão ou Eva por conta do primeiro pecado. Foram tratados com a mesma misericórdia que Deus concede a todos os seres humanos que pecam. (Gênesis 3 e Romanos 5:12-21).

Não há, também, qualquer indicativo de que Deus tenha usado anjos para construção da arca e nem que os tenha premiado por essa tarefa, já que, no relato bíblico e mesmo nos comentários a respeito, sempre unicamente há referências a Noé e sua família como cooperadores nessa ordem dada por Deus diante da maldade crescente e insuportável naqueles tempos. É evidente que os anjos acompanharam todo esse processo, pois são guardiães dos homens no sentido de estarem presentes e agirem quando necessário, mas nada específico sobre construção da arca. (sobre anjos e proteção Salmos 34:7 e Hebreus 1:14).

 

Comunicação com Deus

 

Outro tema abordado de maneira bastante livre e imaginativa pelo filme é a maneira como Noé foi avisado por Deus a respeito da construção da arca e do anúncio da destruição da Terra. É importante compreender que Noé não foi escolhido por Deus para se exaltado e se tornar famoso ou popular. Pelo contrário, a tarefa que Deus confiou ao patriarca era bastante impopular, pois nunca havia chovido no mundo da época e a reação da sociedade foi a pior possível, tanto que Noé pregou por muitos anos a respeito do dilúvio e ninguém quis entrar no barco com exceção de sua família próxima. A ideia de torná-lo um herói acima de todos e visionário é típica de quem transforma histórias em dramas cinematográficos. Noé é retratado na Bíblia muito mais como um homem temente a Deus e que aceitou, pela fé, que o Senhor tinha lhe dado uma missão espiritual (Hebreus 11:7).

Além disso, o relato apenas diz que Deus falou com Noé sem detalhar se foi  por meio de sonho ou visão. É provável que um anjo tenha sido o mensageiro do fim do mundo e isso pelo menos 120 anos antes do ocorrido. O importante, contudo, não é tanto a maneira como essa conversa se deu, mas é improvável que o íntegro servo de Deus tenha se valido de qualquer bebida alucinógena ou outro expediente para ter esse contato com o Senhor. A Bíblia diz que ele era um homem íntegro e isso se dava, também, pela influência benéfica de antepassados tementes a Deus como Enoque, Matusalém e Lameque. Há, ainda, uma outra razão bem coerente: Deus falava com o ser humano diretamente, sem necessidade de intermediários (Gênesis 6:13, 7:1,5). Na Bíblia, há o registro de alguns personagens bíblicos que tiveram o privilégio de uma conversa mais direta com Deus (Abraão, Moisés, Jacó) e outros tantos que falaram com Ele por meio de sonhos e visões. O mais relevante nesse aspecto é que houve, da parte da maioria dessas pessoas contatadas, uma resposta favorável aos pedidos divinos e uma certeza de que tinham estado na presença de Alguém superior a eles. Nunca uma posição de altivez ou desprezo.

A ideia de que pessoas suplicaram para entrar na arca e que Noé tenha as deixado de fora intencionalmente  ou porque a arca seria apenas para salvar os animais não tem base bíblica. Durante o tempo de construção da arca certamente Noé falou exaustivamente acerca do plano de Deus e do imediato juízo que haveria de vir. Não dá para deduzir que havia um desconhecimento da população em relação ao que estava por ocorrer (I Pedro 3:20). Claro que é possível se acreditar que muitos, diante da inundação incrível que chegava, tentaram entrar às pressas na arca que foi fechada por Deus mesmo. Mas certamente já estavam ali em uma situação de medo da enxurrada e não de arrependimento, pois tinham sido advertidos com antecedência e convidados a entrar na arca nos tempos favoráveis.

Há muito mais que poderia ser dito sobre Noé e o relato bíblico contextualizado, mas o melhor é se aprofundar e ler por conta própria. A Bíblia, ao contrário de um filme de algumas horas, tem uma profundidade inexplicável. Quanto mais o sincero estudioso mergulhar nos conceitos e ensinamentos ali descritos, mais verá que tem a aprender e mais vontade de conhecer terá. Não é por menos que, para muitos, é mais do que um livro. É a revelação de Deus para a humanidade.

 

Felipe Lemos